A Bruxinha Aprendiz

Olha só o conto da bruxinha que falei para vocês. E nem precisa dizer que me sinto a própria! Agradeço à Najah por esse momento de inspiração.

Aquela moça jamais esqueceu dos momentos que passara na floresta, perdida e depois de encontrada, embalada num manto de amor, mistério e magia. Após reencontrar seus amigos, retornara para a sua cidade, um lugar estranho, de pessoas estranhas, um ambiente hostil e frio, uma atmosfera que em nada combinava com a sensação de tranquilidade e paz vivida momentos antes. O nome da cidade era “Porto Solidão”. Tinha esse nome por ser um desses lugares aonde as pessoas se refugiavam de tudo, do mundo, dos outros e principalmente, de si mesmas. Até o sol ficava constrangido em aparecer, tamanha era a hostilidade. Os moradores fechavam portas e janelas para a sua luz e não lhe restava outra alternativa, a não ser esconder-se por entre as nuvens, que por sua vez, disfarçavam-se em forma de estranhas imagens no céu.

Mas o sentimento de paz que a moça experimentara, contrastava-se com a realidade vivida naquele lugar. Foi então que antes de dormir, ela pediu à Mãe Lua que lhe mostrasse uma forma de mudar tudo aquilo. ela queria cores, flores, arco-íris, música, vento…vida! Em sonho, contaram-lhe que no bosque da cidade vizinha, havia uma feiticeira que poderia ajudá-la em seu propósito. Na manhã seguinte, ela foi ao tal bosque. Procurou, procurou… e nada encontrou. Ao fim do dia, já cansada, adormeceu e ao acordar, percebera que ao seu lado havia uma cesta com flores de todas as cores e aromas. Sem nada entender, ela pegou a cesta e ficou alí, a admirar a beleza das flores. De leve, uma voz ecoou em seus ouvidos.

– Eis o que procura, criança! Vai e leva contigo o cheiro da paz e não esqueça de distribuir aos mais necessitados e carentes.Você saberá fazer a escolha certa. Em tuas mãos entrego o segredo da felicidade! Agora, segue o teu caminho e vai ao encontro dos aflitos. E o silêncio pairou no ar.

Intrigada com o que ouvira, a moça seguiu o seu caminho de volta. Nas mãos, uma cesta de flores, na cabeça… muitas interrogações e no coração…um enorme desejo de acertar. Durante o percurso, ela foi pensando no que faria, a quem ajudaria e como o faria. E ao chegar à cidade, percebeu que algo estranho havia acontecido. As flores haviam secado, como se uma energia muito negativa e pesada houvesse sugado toda a vida que nelas existia. Percebeu ainda algumas pessoas na rua, mas que não conversavam entre si. Viu um casal que brigava em público, acusando-se mutuamente de suas frustações e falta de perspectivas futuras; um velho, que não parava de reclamar das oportunidades perdidas; mais adiante, seus olhos fitaram um jovem que de tanto desgosto, mergulhava em depressão profunda e desistira de viver… queria apenas morrer; havia também uma mulher que vagava pelas ruas da cidade, à procura de um sonho perdido; nas calçadas, garrafas vazias denunciavam que os últimos goles embreagaram o desespero dos desiludidos.

E num ato de desespero e descrença, ela parou e chorou, por todas as vezes que se mostrou indiferente à dor e ao sofrimento dos que lhe foram queridos; pelas vezes que não revelou seu amor por orgulho ou por receio; pela piada que perdeu; pelo riso que negou; pela mão que não estendeu; pelo ombro que não ofertou; pelo verbo que calou; pelo grito que sufocou; chorou pelo sentimento de impotência diante do caos; pela oportunidade perdida; pela pressa de passar pela vida; chorou pela agonia da dor; pela flor que não vingou… E chorou…e soluçou…e tanto chorou que o casal que brigava parou porque não mais havia platéia para o seu show; o velho esqueceu o que lamentou e, com um lenço envelhecido pelo tempo, suas lágrimas enchugou; o moço que queria morrer, resolveu consolá-la; a mulher ofereceu seu colo para deitar. E tantas foram as lágrimas derramadas, que a lua, de tristeza, se escondeu, as nuvens se fecharam, um vento forte apareceu, e até o céu chorou. E todos juntos correram para abrigar-se do temporal, e choveu por toda a noite. A fúria do vento despetalou as rosas que se misturaram na poeira levantada, e que depois virou terra molhada. E o dia amanheceu! E, como num passe de mágica, o sol se abriu, o arco-íris surgiu e todos saíram de casa para ver o jardim florescido e adulbado com as lágrimas da moça chorosa, que plantou sementes de amor na terra árida do Porto Solidão.

By Sandra Mara
Aug, 26/2005 – 12:33am

Inspirado no Conto “A Bruxa” by (Najah ÐL®).

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