Grand Finale!

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By Sandra Mara

A sapatilha velha, rasgada e com a ponta de gesso já gasta denuncia os muitos passos ainda restantes. Um palco sem platéia convida-me sedutoramente para continuar o espetáculo que por diversas vezes, fora interrompido pelo medo do desafio ou pela pressa de ir embora.

Mas o show não pode parar! Dançar é preciso. Reconheço não ter mais o mesmo equilíbrio na ponta dos dedos, mas aprendi a pisar firme no chão, com os dois pés, enquanto libero minha alma para um vôo livre, rumo ao sonho que estava guardado nas lembranças. Para começar, uma valsa. Meu corpo flutua leve, meu coração bate sereno. Fecho os olhos e me deixo levar e encantar ao som das quatro estações. Vivaldi estava lá, vivo e intenso. A vida me intima à aperfeiçoar as piruetas, que sempre foram o meu grande desafio, querendo sempre o equilíbrio em velocidade máxima. Aprendi a não acelerar tanto, a fixar um ponto, a definir um objetivo, o que tecnicamente me fará girar e voltar ao ponto de origem mostrando-me que viver é um eterno recomeço, que cada ato é um espetáculo que dispensa ensáios, mas que requer determinação e coragem para seguir adiante.

Cansei do silêncio, quero barulho! Troco a delicada sapatilha cor-de-rosa pelas placas de ferro da sapatilha preta e começo a sapatear um jazz. Imagino que estou pisando em meus erros, assegurando-me de que não os cometerei novamente e que serei mais cautelosa e menos displicente. E danço, como há muito não o fazia e acompanhada de Sinatra, celebro a vida em suas múltiplas dimensões. Ah! E se caísse aquela chuva, faria um “dueto” com Gene Kelly e juntos e cantaríamos e dançaríamos sob as lágrimas caídas das nuvens, que nada mais seriam que um banho na alma, pelas dores outrora sentidas, e que hoje seriam a inspiração para a liberação das emoções, como num ato de rebeldia e de recusa ao sofrer.

E do flashback dos meus erros, ficaram as lembranças das dores e a certeza de que era preciso olhar em frente e seguir sem sair do salto. À meia luz, o salto convida ao tango e numa ode à saudade, ele me chama para o centro, me segura firme e conduz meu corpo por caminhos antes inacessíveis. É chegada a hora de dividir o palco. Me entrego à lírica da vida, fecho os olhos, danço ao som de Gardel ouvindo sua melodia chorosa … e me deixo levar no perfeito sincronismo de música, dança e poesia.

E me liberto do salto, como quem salta para para vida, com os pés livres para pisar na areia sem receio de nada. Piso firme, na certeza de que conheço bem o terreno e vou seguindo em frente, com os pés calejados à espera do “grand finale” que nada mais é que o recomeço do meu viver.

Abrem-se as cortinas… acendem-se as luzes.

E viva a vida… porque o show tem que continuar!

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